17
Set 07

+ uma vez a Maddie

Muito se tem falado na TV sobre o desaparecimento da menina inglesa. Saiu ontem um texto no Jornal de Notícias, em que se ouviu a opinião de alguns especialistas.

 

Pode o caso Maddie ser visto como uma construção social?
 

 
Informação e entretenimento misturaram-se na cobertura deste acontecimento, defende Rogério Santos

Dina Margato

Que o caso do desaparecimento de "Maddie" na Praia Luz levanta enormes questões ao jornalismo e à visão do mundo que transmite aos cidadãos parece consensual. Terá sido a informação fornecida a criar uma história muito para além da notícia? Como se justifica que a notícia do desaparecimento de uma criança seja o mais mediatizado do ano?

 

(perguntas, na minha opinião fundamentais para este caso)


 

 

 

 

Rogério Santos, professor e investigador na área dos média, ressalva que o desenrolar dos acontecimentos foi fornecido "com óculos". Para Felisbela Lopes, professora universitária na área da comunicação, as fontes ditas especializadas, como ex-inspectores da PJ, apresentaram informação mais próxima dos factos do que da opinião. E, sim, considera que houve uma construção social que se sobrep s aos acontecimentos em si. Já a socióloga Isabel Babo-Lança entende que as acções desencadeadas para encontrar a menina se tornaram acontecimentos por si só e deram continuidade à narrativa.

"A cobertura tem sido excessiva, mas compreende-se que os canais [televisivos] também precisassem de substituir o espaço deixado vago pelos incêndios", introduz Rogério Santos. Depois, diz, o tema tornou-se notícia sempre com pequenos desenvolvimentos, que foram alimentando os média, como a visita dos pais ao Papa. O apego da televisão à história, a seu ver, também se explica pelas características dos envolvidos. "A televisão vive de imagens e a família é bonita".

Para Rogério Santos, o acompanhamento - que vê como um misto de informação e entretenimento - acabou por ficar mais barato do que um Big Brother ". "Seguir carros não é fazer jornalismo. Por vezes, os jornalistas pareciam relatadores como os do futebol", nota. A concorrência entre os meios de comunicação tê-los-á empurrado para os longos directos, tantas vezes sem novidades. "Houve exageros, sim". O investigador, que é autor do blog "Indústrias culturais", está convencido de que este caso testemunha bem o enorme poder dos média junto dos cidadãos. Não tem dúvidas em afirmar que a realidade foi transmitida "com óculos", para que fosse focalizada e avolumada.

Comentador de um jornal inglês de referência, "The Guardian", Martin Bell tem opinião semelhante. Lembra que são muitas as crianças desaparecidas, mas nunca como no caso de Maddie essas notícias dominaram a agenda dos média. "Vamos pôr isto claro. Isto é um crime de um tipo ou de outro e uma tragédia familiar. Nem mais, nem menos".

Para a investigadora na área dos média Felisbela Lopes, estamos "claramente, perante um caso de grande construção social da realidade. Ganhou proporções completamente desfasadas". Mais parece, diz, "uma espécie de Second Life'". Felisbela nota uma "preocupação constante de se avolumar tudo o que foi acontecendo". E pergunta "O que terá ficado por noticiar neste período, por o espaço ter sido dado ao 'caso Maddie '?"

A professora faz notar que a organização das fontes por parte da família também foi algo fora de comum. "Eles até falam em separado aos jornalistas ingleses. Organizaram-se desde o primeiro minuto e com profissionalismo".

A sua análise dá prioridade à questão das fontes. "Pede-se informação a quem vai a estúdio e é apenas comentador, sendo que essas pessoas não conhecem a investigação por dentro ou, no caso de psicólogos, nunca falaram ou contactaram com os pais da criança". Dada a escassez de elementos, os jornalistas serviram-se de fontes especializadas - juristas, ex-investigadores da Judiciária e psicólogos - e foi a eles que pediram factos em vez de opinião. Por seu lado, "os especialistas cederam à tentação de lançar factos".

"Este caso dá-nos grandes lições", afirma Felisbela Lopes. "Temos forças policiais que não estão preparadas para lidar com os média" e "grandes lacunas" o nível da informação. Nestas condições, "não se teve capacidade de neutralizar boatos, o que teria sido importante para esclarecer o que não era informação".

Isabel Babo-Lança, investigadora na área da Sociologia da comunicação, vê nas características da família alguns atractivos para os média "Uma família feliz, de médicos, a passar férias". Acrescenta que ao desaparecimento se seguiu um conjunto de acções desencadeadas pelos pais para encontrar a filha que se tornaram eles próprios acontecimentos, criando "uma narrativa em curso". O facto de os pais se terem mantido na Praia da Luz, convertida em "palco" também contribuiu para isso. "É inédito, eu pelo menos não conheço mais caso algum, em que os pais marquem eles próprios a agenda mediática", sublinha.

No seu entender, não foram só os média a construir a história. "As respostas dos pais ao drama criaram um enredo", assinala Isabel Babo-Lança , que não imputa aos média uma pura fabricação dos acontecimentos". Por outro lado, considera que estes "acabaram por transmitir uma forma de ver e julgar o que se passou".


Pode o caso Maddie ser visto como uma construção social?

Tema do ano

O "caso Maddie" lidera nas estações portuguesas este ano. Foi alvo de 1080 peças que duraram 54 horas. Em segundo lugar, segundo a Mediamonitor
, ficam as eleições Intercalares em Lisboa (531 notícias, 23 horas), sucedendo-se a gripe das aves e o escândalo Casa Pia.

30% na última semana

Na última semana (de 6 a 11), os telejornais dedicaram-lhe 30% do seu tempo. A SIC foi a que mais notícias emitiu.

Larry King

Na semana passada, o jornalista abriu uma excepção no seu programa da CNN - não é costume tratar temas não americanos - ao debater o desaparecimento de Maddie . Ouviu juristas, psicólogos e médicos legistas.

 

 

Fonte: Jornal de Notícias, dia 16/09/2007, "Pode o caso Maddie ser visto como uma construção social?"

 

 

 

 

 

 

 

Ao que chegamos...

O caso está tão mediático, ao ponto da CNN, como referiu o texto anterior, falar no caso e o filme "Gone Baby Gone", que falei há dias, ter sido adiada a sua estreia no Reino Unido...

publicado por dina às 10:40 | comentar | favorito

A diferença de tempo

A diferença do tempo que o José Sócrates irá ter com o Presidente Bush na Casa Branca varia de meio de comunicação social para meio de comunicação social.

 

Hoje de manhã no Bom Dia da RTP, o nosso primeiro-ministro ia estar com o Bush uma hora.

 

No noticiário da Rádio Comercial e no jornal online Diário Digital eram 50 minutos precisos.

publicado por dina às 10:34 | comentar | favorito
17
Set 07

É sempre bom quando...

Queremos ver o resumo de um jogo de futebol, com os seus momentos importantes e lances fundamentais e em vez de uma reportagem, obtemos uma crónica com imagens .

 

Foi o que aconteceu hoje no Jornal da Tarde da RTP, em relação ao jogo de futebol da I Liga entre o Benfica e o Naval.

 

Quem fez o texto mais composição de imagem era definitivamente benfiquista, pois quem esteve naquele jogo foi apenas um clube... Quem era mesmo o adversário do Benfica? Não fiquei a saber muito bem...

Ora, a reportagem supostamente deveria ser (como qualquer peça jornalística) imparcial, mas esta continha comentários, opiniões...e mais um rol de cenas imperdoáveis a um jornalista.

publicado por dina às 00:42 | comentar | favorito